Não implementação de práticas ESG gera impactos negativos em diferentes dimensões

Por: Pádua Martins | Em:
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Em termos reputacionais, a ausência de práticas ESG pode afetar a confiança de investidores, consumidores e até mesmo dos próprios colaboradores. (Foto: Envato Elements)

“Não implementar o ESG (sigla em inglês que significa environmental, social and governance) hoje é abrir mão da competitividade, da reputação e da responsabilidade com o futuro”. É o que afirma a especialista em ESG e sustentabilidade corporativa Alcileia Farias (foto), coordenadora o Núcleo ESG da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), deixando claro que é cada vez mais importante a implementação do ambiental, social e governança. Ela entende que a não implementação de práticas ESG pode gerar impactos negativos em diferentes dimensões.


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Do ponto de vista econômico – explica Alcileia –, empresas sem compromissos claros com sustentabilidade podem perder contratos, especialmente com grandes organizações que exigem responsabilidade em toda a cadeia produtiva. “Isso já acontece com indústrias cearenses que, ao buscar a certificação ESG-Fiec, relatam exigências de clientes nacionais e internacionais quanto à comprovação das práticas ambientais e sociais” – frisa.

Já em termos reputacionais, a ausência de práticas ESG pode afetar a confiança de investidores, consumidores e até mesmo dos próprios colaboradores. “Estamos na era da transparência, e não basta dizer que a empresa é sustentável — é preciso comprovar com dados, relatórios e ações consistentes”. Do ponto de vista ambiental e social, a falta de alinhamento com os princípios ESG contribui para o agravamento de problemas globais como as mudanças climáticas, desigualdade social, falta de diversidade e más condições de trabalho. Ignorar essas questões compromete o futuro dos negócios e da sociedade.

“A implementação do ESG nas empresas brasileiras ainda é bastante desigual. Grandes corporações, especialmente aquelas com exposição internacional, já avançaram significativamente, pressionadas por investidores, legislações e consumidores cada vez mais exigentes. No entanto, quando olhamos para as pequenas e médias empresas (PMEs), percebemos um desafio maior, que passa principalmente pela falta de conhecimento técnico, recursos financeiros e apoio institucional.”

Alcileia Farias, coordenadora o Núcleo ESG da Fiec

No Ceará, a especialista em ESG e sustentabilidade corporativa diz que é possível constatar um movimento promissor. A Fiec, por meio do Núcleo ESG-Fiec, tem liderado esse processo ao oferecer suporte técnico, mentorias, capacitações e um Programa de Certificação ESG, auditado de forma independente. Esse programa já conta com mais de 50 indústrias participantes, de diferentes portes e segmentos, e tem ajudado a tornar o ESG uma realidade prática e não apenas conceitual.

A coordenadora o Núcleo da Fiec observa que, quando há apoio estruturado e linguagem acessível, até pequenas empresas compreendem que sustentabilidade não é custo, é investimento. E, mais do que isso, é uma forma de se manter competitivo em um mercado cada vez mais orientado por critérios socioambientais e de governança. No entanto, reconhece que existem barreiras para implementação do ESG.

“As principais barreiras estão ligadas à cultura organizacional, limitação de recursos e falta de conhecimento técnico. Muitas empresas ainda associam o ESG a uma responsabilidade apenas do marketing ou da alta gestão, quando, na verdade, trata-se de uma mudança de mindset e de processos que precisa envolver toda a organização. Além disso, há o desafio da mensuração, como definir indicadores, comprovar práticas e garantir que ações pontuais evoluam para políticas contínuas. A ausência de um diagnóstico claro e de suporte especializado também impede que muitas empresas avancem.”

Alcileia Farias, coordenadora o Núcleo ESG da Fiec

Para concluir, Alcileia ressalta que, no caso das pequenas empresas, o obstáculo é mais acentuado. Falta pessoal, tempo, e muitas vezes elas não percebem o ESG como prioridade estratégica — o que tende a mudar quando compreendem que permanecer fora dessa agenda pode limitar sua inserção em cadeias de valor mais exigentes, acesso a crédito e até mesmo sua reputação no mercado.

Empresas precisam ter preocupação além do lucro

Na opinião de Danielle Viana (foto), Assistente Social, especialista em Gestão de Políticas Sociais e Gestão Ambiental e Sustentabilidade, nos últimos anos a sigla ESG vem ganhando destaque no mundo e no Brasil, pois chamou a atenção do mundo da gestão e dos investimentos. O ESG surge para mostrar um pouco mais às empresas que elas precisam se preocupar além do lucro, “precisam se preocupar com tudo que envolve o seu negócio. Ou seja, com o entorno, com a cadeia, com o ambiente. O ESG causou um impacto grandes nas empresas, que hoje precisam estar alinhadas às estratégias ESG para atrair investidores”.

Para ela, é perceptível o movimento das grandes empresas brasileiras em incluírem na sua estratégia de negócios os pilares ambientais, sociais e de governança, pois percebem o quão valiosa essa agenda é para a sustentabilidade das empresas. Hoje, muitas empresas no Brasil já possuem uma agenda sólida no quesito sustentabilidade empresarial. No Ceará não é diferente. A maioria das grandes empresas já está aderindo aos pilares ESG. Nas médias e pequenas empresas, ainda que incipiente, é possível identificar algumas ações de responsabilidade social voltadas para o público interno, como programas de diversidade e inclusão, que fazem parte do Social.

Indagada sobre quais setores lideram a implementação do ESG no Brasil, Danielle Viana observa que há algumas avaliações em sustentabilidade de empresas. Uma delas é o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), que é uma ferramenta que avalia o quanto uma empresa se compromete com práticas sustentáveis. O ISE B3 é uma versão do ISE, que analisa as empresas listadas na Bolsa de Valores. Na sua última avaliação, divulgada em 2024, listou 76 companhias pertencentes a 36 setores. As empresas brasileiras que demonstraram o maior desempenho ESG são de telefonia, varejo e consumo, mineração e metais básicos, financeiro, elétrico, e de papel e celulose.

“Como a sigla ESG ficou muito conhecida e tornou-se recorrente no mundo pós pandemia de Covid-19, no âmbito dos negócios, o ESG ganhou destaque e se tornou um fenômeno de peso indiscutível. Podemos afirmar que essa visibilidade ao tema é, principalmente, resultado do interesse e da pressão da sociedade. Hoje, temos mais acesso à informação e evoluímos enquanto sociedade, passamos a ter uma visão mais crítica, transformado a sociedade e a forma como vemos o mundo. O consumidor está cada vez mais exigente, especialmente, as novas gerações. Podemos escolher quais produtos queremos adquirir e com quais empresas queremos nos relacionar a partir das práticas sustentáveis que essas empresas praticam do ponto de vista ambiental e que se comprometam do ponto de vista ético e de inclusão social.”

Danielle Viana, especialista em Gestão de Políticas Sociais e Gestão Ambiental e Sustentabilidade

Sobre qual é o futuro do ESG no ambiente corporativo, ela garante que o ESG trouxe um movimento global em direção a uma economia mais sustentável, justa e ética. Esse, é um caminho sem volta, “não aceitamos retroagir, embora não tenhamos, ainda, uma legislação que obrigue as empresas a aderirem esses conceitos, a agenda ESG deverá continuar a ganhar força, impulsionada pelos investidores, consumidores mais exigentes e avanços regulatórios. Acredito que o ESG não é só uma tendência passageira, e sim uma ferramenta poderosa para transformar o mundo dos negócios e a sociedade” – finaliza.

Nas micro e pequenas empresas existem desafios e oportunidades

Sílvio Moreira (foto), analista de Negócios do Sebrae/CE, acredita que, nas médias e principalmente grandes corporações, o ESG está bem disseminado em nível mundial, porque é uma exigência, sobretudo dos mercados financeiros, para as empresas que buscam crédito internacional. Elas precisam apresentar práticas mapeadas e já consolidadas de ESG, tanto no eixo ambiental, como da governança e do social.

No entanto, nas micro e pequenas empresas, principalmente, existem desafios, mas também oportunidades. E cita, por exemplo, que, nas cadeias de valor das médias e grandes empresas, estas estarão cada vez mais atentas às práticas de ESG das pequenas. “E elas exigirão cada vez mais isso, porque são cobradas pelo mercado financeiro e, logicamente, vão repassar esse nível de cobrança pra sua cadeia de valor também. Principalmente de fornecedores. Então, essas são oportunidades”.

Quanto ao desafio, primeiramente é fazer com que as micro e pequenas empresa compreendam, de fato, o que é o ESG, como elas podem implementar essa agenda de iniciativas, mapear o que elas já fazem, entender o que elas precisam fazer para, de fato, poderem dizer que tem essas práticas de ESG mapeadas, estruturadas e consolidadas dentro dos seus negócios.

“Acredito que a principal barreira hoje é o desconhecimento, porque quando se fala em ESG tem que existir consciência de que essas três letrinhas são importantíssimas na gestão de qualquer empresa, independente do tamanho, do seu porte, se é pequena, se é média ou se é grande. A não implementação das práticas de SG pode trazer problemas em dois aspectos da empresa: no caixa e na reputação.”

Sílvio Moreira, analista de Negócios do Sebrae/CE

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